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Parque Nacional de Tikal…>>28-06-2007 A tarde ia a meio quando cheguei a Flores e estava um calor medonho. Em pleno lago Petén Itzá, Flores é uma pequena ilha turística que comunica com a vila de Santa Helena por uma estreita e comprida ponte. Como já me venho habituando aqui na Guatemala, ninguém tem grande pressa para coisa alguma, e essa calma contagia agradavelmente o ambiente geral. Escolhi um hotel muito barato, dos poucos que tinham como guardar a mota. O quarto estava impregnado por um intenso cheiro a obras, a cimento acabado de secar, muito abafado, sem janelas, havendo apenas um postigo diminuto a deixar entrar algum ar. À noite acabaria por concluir não ser possível dormir ali e mudaria para um outro quarto onde apenas cheirava ligeiramente a fossa e a janela era grande. Com o ventilador no máximo era tolerável. O preço compensava as condições: 4 euros/noite. Já sobre o lago, havia o restaurante do hotel, do outro lado de uma rua que à semelhança das restantes na ilha misturava no pó do piso um tapete de escaravelhos gigantes voadores, mortos e espalmados pelas rodas dos carros. À noite estes bichos esvoaçavam-se atabalhoadamente em redor dos lampiões, por vezes baixando sem controlo para pânico dos transeuntes, caindo depois na rua, imóveis, a espernear sobre a carapaça à espera do próximo carro. De dia apenas restavam no chão estas imensas manchas achatadas e disformes, mais escuras perto dos postes. Da esplanada havia uns degraus para a água, e antes de comer atirei-me a um mergulho refrescante. Dormitei um pouco na rede e em seguida decidi remar num pequeno barco de borracha do hotel até à outra ilha do lago, mais distante do que parecia. Quando consegui voltar o sol já se punha, espelhado nas rugas moles da superfície da água. As ruínas de Tikal estão localizadas na pura selva. O parque é muito maior do que pensava, e os visitante, ainda que muitos, perdem-se nos kms de trilhas sem perturbar demasiado a tranquilidade da natureza, porventura mais impressionante que as ruínas em si. Tomei o primeiro desvio que me afastava do caminho principal e afundei-me na espessura da floresta, rodeado de sons exóticos, cada mais intensos à medida que perdia de vista a encruzilhada. Por aqui não vinha quase ninguém, o que me parecia óptimo para ver mais animais. Tinha passado o primeiro pequeno conjunto arqueológico desta área do parque e andava distraído a apreciar uma densa trilha de formigas grandes que transportavam folhas de várias vezes o seu tamanho, num desfile trôpego de nervosas bandeiras verdes. Um pouco por todo o lado passeavam-se insectos estranhíssimos, de cores garridas e espaciais, uns de aspecto mais pacífico, como libelinhas e borboletas, outros mais agressivos: vespas vermelhas e besouros com ar de robocop. Abundavam pequenas lagartixas, e vi também um lagarto grande, pele esbranquiçada pintalgada a castanho, cabeça de serpente estranhamente afastada do corpo. Bastava parar um pouco, e às vezes nem parar era preciso, para ver em cada canto estes bichos desconformes, estas variações criativas aos standards mais comuns. A certa altura ouvi macacos. Bom, na altura não tinha a certeza de serem macacos. Rugiam com hostilidade, devia haver zaragata, e mais lembravam leões. Depois finalmente pude distinguir entre esses gritos os clássicos grunhidos símios como gargalhadas abafadas e perdi as dúvidas. Avancei sobre a folhagem do caminho numa passada tão silenciosa quanto possível até estar bem perto. Eram vários e a barulhenta discussão era entre os dois maiores. Um em cada árvore, urravam ferozmente, ao mesmo tempo girando a cabeça, como que para garantir que em todas as direcções se ouviriam as suas declarações bélicas. Noutros ramos os mais pequenos aguardavam atentos o desfecho, que foi simples com a retirada de um deles. Voltou a calma e soaram mais claros os pios estrambólicos dos pássaros. Dos macacos, já só se ouvia os divertidos saltos que davam entre ramos. Estavam curiosos com a minha presença, e aproximaram-se. De repente, lá bem no alto das frondosas copas que se tocavam por cima da trilha, passaram dois pequenos macacos-aranha, não negros e corpulentos como os outros, antes castanhos e magricelas com uma cauda enorme que se enrolava nos galhos. Como relâmpagos, voaram entre a escassa folhagem em piruetas acrobáticas, precisas, e desapareceram em instantes, deixando atrás de si somente ruído leve dos ramos vergados a voltar ao normal. Eu estava deliciado, intercalando entre o vídeo da câmara compacta, o zoom montado na reflex, e o simples olhar abismado. Não percebi bem se era normal ver assim estas coisas todas em tão pouco tempo. Para mim já tinha valido a visita, mesmo ainda sem ter visto as famosas ruínas. Demorei até abandonar o espectáculo. O sol, agora mais forte, atravessava a densa ramagem da selva e chegava esmorecido, mas era uma sombra intensa e quente, o ar opressivamente húmido e pesado. Parte da fama destas ruínas reside na altura dos seus templos, pirâmides íngremes que se perfilam escadaria fora, encabeçadas por topos rombudos, como pálidos penachos carnavalescos. A tentação de trepar os enorme degraus de cada templo foi sendo doseada tanto pelo calor como pelo esforço físico. Visto de cima, o ordenamento dos edifícios da praça principal impressiona. A imponência da sua construção também. Deixei para o fim o templo IV, recordista das alturas com quase 70 metros. Ao subir a duvidosa escadaria de madeira que serve os trabalhos de restauro, abateu-se sobre o parque um forte aguaceiro. Terminei de trepar e refugiei-me na câmara fúnebre do topo, passando as barreiras limitadoras e esgueirando-me entre os andaimes das obras. A vista era magnífica! A floresta mostrava-se densa e impenetrável até onde a vista alcançava, num tapete compacto de altíssimas e exuberantes copas. Mas o que tornava o cenário insólito era o modo misterioso como os quatro ou cinco maiores templos emergiam deste manto, com as suas cabeçorras toscas e desfalcadas a furar o verde, numa magnificiência sagrada perfeitamente enquadrada no horizonte. A chuva parou pouco depois, e dei por terminada a minha visita, que durava já há seis horas. É muito normal seguir na estrada acompanhado por enormes pássaros. Vejo tantos, que infelizmente já me habituei. Nos primeiros tempos era bem capaz de parar a mota, trocar de lente, e disparar maravilhado. Agora sinceramente já os vou ignorando. Com frequência vejo águias, abutres ou galinholas esvoaçando as suas enormes asas, passando bem perto da mota, ou debruçando-se em pleno asfalto sobre algum cão morto e arrancando com majestade à minha passagem. Não há como combater esta desvalorização do quotidiano. O momento de apreensão de uma novidade é inigualável, e esse prazer é intrínseco ao facto de nos obrigar a trabalhar as estruturas de percepção, a adaptá-las a essa nova combinação de estímulos. Repetindo-se o fenómeno, actua uma optimização mental que laboriosamente vai remetendo essa assimiliação cada vez mais para processos subconscientes, e acho que é por isso que quando vivo rotineiramente sinto a vida passar-me ao lado, como se não fosse suficientemente interessante para obrigar o cérebro a senti-la, a absorvê-la de uma forma consciente. Nesta aventura concluí que também viajar tem a sua dose de risco nessa matéria. Nem todos os dias estou mentalmente preparado para sentir esse intenso prazer de ligar a mota e partir à conquista do mundo, como no dia em que parti de Buenos Aires. Claro que viajar tem tanto de novidade todos os dias, que até parece estranho estar a falar de rotina, mas assim é. O inesperado pode tornar-se paradoxalmente expectável. Já há algum tempo que venho acusando aqui e ali alguma incapacidade para absorver determinado momento ou paisagem como merecem. Como se a área de acolhimento estivesse demasiado congestionada por tudo o que já vi. Arrisco dizer que tenho desperdiçado alguns momentos, e reconheço que há pouco a fazer sobre isso, como pouco podia eu fazer quando a caminho do emprego me sentia incapaz de saborear os inúmeros detalhes bons da rotina que levava, cheia de ex-novidades que em tempo me encataram. E não era falta de esforço, porque tentava diariamente sentir como era bom ter portão automático na garagem, como era bom ter direcção assistida no carro. O problema é que a real emoção gerada por estes pensamentos é bastante limitada, não a podemos controlar conscientemente. Quando do outro lado do planeta uma águia esvoaça à minha frente e não me emociono, concluo que na raiz da felicidade está a mudança e jamais algo de absoluto. Até à fronteira, são 30kms de piso de terra, mau. Continuo impressionado pelos tapetes de escaravelhos esmagados que mancham a estrada perto dos lampiões, são mesmo muitos! Vejo uma tabuleta a indicar Fronteira Belize e sinto a atenção redobrar automaticamente. As últimas imagens da Guatemala são de uma vila muito pobre, crianças descalças, arruamentos de terra, muito calor e alguns cambistas a apregoar dólares à minha passagem mesmo antes da ponte fronteiriça. Texto também disponível em www.visaoonline.pt Comentários Felicidade Ler esta crónica foi como estar contigo, nas discussões intermináveis sobre a vida e sobre felicidade. Já tenho saudades dessas conversas! Beijo enorme por Ana em 2007-06-29 08:06:34 Parabéns De todas as crónicas que li, sem dúvida que esta foi aquela que mais me maravilhou, ao ponto de não resistir a finalmente deixar o meu comentário. Desde o primeiro dia que acompanho esta tua viagem (depois de tantos meses as ler as tuas crónicas já me sinto à vontade para te tratar por tu, não leves a mal!), e tenho sempre resistido em escrever qualquer comentário, apesar de ficar sempre maravilhada e sentir-me totalmente "viciada". Na realidade, tirando o fim-de-semana, todos os dias entro no teu site para ver se já temos novidades. E pelo que tenho lido dos outros comentários, acho que este é um sentimento comum, entre as pessoas que tiveram a sorte de entrar em contácto com esta aventura. Parabéns, acho que está no teu melhor. Aguenta firme até ao fim. por Fernanda em 2007-06-29 10:35:57 Está quase Tenho estado ausente, mas mal consegui um tempo fui logo ler as tuas crónicas e deliciar as tuas fotografias, as crónicas estao cada vez melhores e, as fotografias estão lindas (adoro as dos macacos). Estou a acompanhar a tua viagem desde o inicio e vejo que já falta pouco, quando menos esperares ja estas a ver a estátua da liberdade. Fica bem e a continuaçao de uma boa viagem. por alexandre em 2007-06-29 12:12:51 maravilhoso Este deve ser um dos lugares mais bonitos por onde tens andado! ver os animais assim perto no seu sitio original deve ser impecável! só não me agradaria muito andar no meio de lagartixas e vespas... mas como se costuma dizer "não há bela sem senão..." e não te esqueças k embora para ti já seja vulgar nós aqui só vemos através dos teus olhos! Adorei as fotos, a crónica e fico á espera da próxima... Tudo de bom e continuação de boa viagem! por Olga em 2007-06-29 12:14:08 Que inveja... Pela tua descrição, o parque nacional do Tikal é, de longe, muito mais magnífico e deslumbrante do que Machu Picchu... Invejo-te! :p Bom... pelo menos sei que sou de certo modo priveligiada, pois ainda vou ouvir algumas histórias e descrições extra!... Que o deus Ahuia (do Sol) te acompanhe... por joao em 2007-06-29 15:06:25 Fantástico... Temos seguido a tua viagem desde o inicio, acredita tem sido um prazer viagar contigo. Força até ao fim. por Ana em 2007-06-29 17:11:39 posso ser os teus olhos por umas horas? Olá Gonçalinho: sigo os teus passos.gostava de ser os teus olhos por umas horas.beijos, MafaldaRangel por Mafalda Rangel em 2007-06-29 22:50:46 Keep on rolling :) por Dan Mac em 2007-06-30 03:56:01 Felicidade "A felicidade está nos olhos de quem a vê." Boa crónica! Um abraço. por Sérgio em 2007-06-30 12:29:31 Filosofando Pois é!... As rotinas somos nós que as criamos, mesmo se o que se passa à nossa volta não seja nada rotineiro. Mas, tudo é relativo e as novidades de ontem são já "vulgaridades" de hoje. Não te amofines com isso, Gonçalo. É normal. Porém a tua sensibilidade e o teu gosto pela dialética, é no que dão. Bom trabalho, este que dia a dia nos vens oferecendo. Um abraço. por Rogério Pinto em 2007-06-30 21:36:28 Que bom! Tens que começar a pensar no como e o que vás fazer para manter este espaço. Esta é uma ideia para refletir enquanto os olhos vêm. Não gostava de sentir saudades! por sao.o em 2007-07-01 20:20:37 Já agora... ... Tikal é também o nome do vencedor do 1999 Spiel des Jahres (Jogo de Tabuleiro do ano) - Mt bom por sinal ;) Grande Gonçalo, continua com força... por Nuno Cunha em 2007-07-02 15:31:42 Não resisti...! Não resisti e pilhei-te uma foto para colocar em www.opilhablogs.blogspot.com Sem tirar o valor a outras, mas esta crónica está muito fixe, principalmente a descrição dos bicharocos...! por Finório em 2007-07-05 09:46:10 Como existe lugares Binitos Ainda.... Bom essa viagem deve ter cido maravilhosa pois adorei as fotos....Apareceu as imagens em boa hora estava precisando de fotos e achei ... Parabéns td maravilhoso mesmo!!!! Xau xau bjoOoss por bruna em 2007-10-21 17:32:41 ja la estive... pois é, sou faltou o jaguar para dar mais realçe ao local... aqueles ninhos das oropéndulas deixaram-me louco.. 1 abraço por santiago em 2008-01-29 22:27:54 livro grande aventura ate para mim ao ler o livro . o livro devia ter tantas paginas como os kil que andaste.bom trabalho por nuno.b em 2008-04-30 22:40:55 nada
es um pessoa mesmo curajosa... por nuno em 2008-12-10 09:39:05 | ||||