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Preso no temporal…>>

28-02-2007

Estou bloqueado no Parque Nacional Torres del Paine. Ventos de 150km/h fizeram esvoaçaram o meu pequeno mundo, eu para um lado, a mota para o outro, numa expressão de poder que nunca tinha vivido antes. Agora estou refugiado numa pousada perto do Lago Grey sem poder sair até tudo acalmar. Mas vou retroceder um pouco para explicar como vim cá parar.

Saí de Punta Arenas em direcção a Norte, numa estrada que fez voltar o cenário das “pampas”. Longas e ventosas rectas a atravessar extensos descampados. Na linha do horizonte era possível distinguir uma longa muralha negra a desenhar o perfil da cordilheira. Chegando mais perto de Puerto Natales anunciaram-se os primeiros cenários de montanha, de topos maciços, progressivamente mais recortados e agressivos, com cumes aguçados e vertentes nevadas do lado da sombra.

Puerto Natales junta a este pano de fundo as águas calmas do Golfo Almirante Montt. Em si, é uma vila pequena e pacata, que contrasta com a vibrante atmosfera de expedição e aventura dos muitos turistas que aqui baseiam a exploração da região. Trazidos de longe por grandes autocarros, passeiam as suas gigantes mochilas pelo traçado ortogonal dos arruamentos, povoando supermercados, hostals, bancos e cybercafés. Compram mapas, discutem dicas, procuram as melhores trilhas, os que vão aprendem com quem foi, e todos partilham a emoção da conquista das Torres del Paine.

  Logo à chegada ao centro fui interpelado por um escocês, Hamis. Já estava em viagem há mais de um ano, com a namorada Ema, ambos numa interessante GS1100 e aconselhou-me o único camping da vila. Instalado, fui percorrer todas as drogarias à procura de um parafuso que não existia em Puerto Natales. Comi no parque, e já deitado, preparado para estudar o meu novo mapa do Parque Nacional, fui surpreendido por alguém a pronunciar bem demais o meu nome, português certamente. Gonçalo? Sim? Já estás a dormir? Não. Então anda daí conversar um bocado, que já estou com saudades de falar português!

Tratava-se do Fernando Silva, que viajava com a sua namorada turca Dilac, com quem se entendia em inglês. Tinha visto a minha viagem na Internet, e sabia que eu andava por perto. Maior a coincidência quando fui parar ao mesmo parque onde estava acampado, e acabou por reconhecer a mota. Já estão em viagem há quase dois anos, e ainda com um longo caminho pela frente. Estive até às tantas a ouvir as peripécias que viveram nos cantos mais remotos e inacessíveis da América Central.

A chuva trocou-me os planos e acabei por adiar a partida do dia seguinte e aguardar uma arrumação a seco. A preguiça da tarde deu direito a sesta, e ao final do dia já estávamos cinco à volta de umas garrafas de vinho e cervejas, juntaram-se ainda um casal de ingleses, o alemão do jipe, e chegaram dois canadianos numa BMW de 1971. Do grupo, sou o mais limitado em termos de tempo. Relativamente falando, tenho pouco. O jantar acabou por ser uma grande pândega com a conversa a rondar a mirabolante travessia do hiato de Darien, e as tenebrosas estradas que ligam o Chile à Bolívia. Ri-se ao contar o canadiano, ouço com atenção eu e o escocês, esperamos poder rir também depois de lá passarmos, enfim, a descontracção e a ansiedade na mais perfeita sintonia.

Durante a noite levantou-se um vento forte, que foi penetrando nas parcelas abrigadas do parque. Saí com o sol da manhã, e arranquei para as montanhas. Invadia-me uma agradável sensação de viagem, como no primeiro dia. Senti o vento na cara, o peso da mota e passeei mentalmente por toda a bagagem me acompanhava, explorando a sensação de aventura e nomadismo. À minha frente, implacável, a cordilheira erguia-se com majestade. Balancei uns ésses para a esquerda e para a direita a medir a tracção do asfalto, baixei a viseira e acelerei para velocidade de cruzeiro. Estava feliz, e longe de imaginar o desespero das horas seguintes.

Torres del Paine é uma região de uma beleza fora do vulgar. Geologicamente recente, apresenta picos de vivas arestas, num abrupto cenário de montanha que pousa na tranquilidade de magníficos lagos e florestas. No centro do parque, enormes torres de centenas de metros de altura desfilam num gigante pódio de pedra. Apercebo-me que o vento se vai tornando constantemente forte, com rajadas violentas. Não me sinto tranquilo. Cada fotografia exige agora uma cautelosa escolha da posição da mota e vai sendo mais desagradável progredir na gravilha com constantes sacudidelas.

 Segui a dica do escocês, e fui pelo caminho em construção, poupando imensos kms e uns tantos euros, porque por ali ainda não há bilheteira. Mas o mais importante era a paisagem. Disse-me que encontraria uma barreira, a quarenta kms, cujo aloquete estava mal fechado quando ele passou. Se não tivesse a mesma sorte, teria que voltar tudo para trás, ou improvisar uma passagem pelo lado, pelas obras, que ele avaliou antes de se aperceber que era possível levantar a barreira. Classificou-a como “difícil mas seguramente possível”. Terrível combinação de adjectivos. Fica a obrigação de tentar...

De facto não tive a mesma sorte. Antes de atacar a alternativa fora de estrada, preparei o terreno, tirando muita pedras e suavizando a inclinação. Pousei o saco de depósito e o capacete. Calculei a quanto tempo dali estariam os dois ciclistas que tinha ultrapassado havia uns kms e avancei, disposto a deixar cair a mota e esperar por eles, se preciso fosse. A mota desceu, escorregou, torceu, saltou, derrapou, e já no fim levantou a roda da frente bem alto, antes de amainar do outro lado da vala. Parece que estou com demasiado peso na traseira, mas foi um perfeito sucesso. Só espero não ser obrigado a atravessar no sentido contrário…

O caminho estava cada vez mais bonito, com as torres a aproximarem-se lentamente. O vento teimava em arruinar a tranquilidade do momento, com rajadas a levantar pó e pedras em poderosos remoinhos que sacudiam a mota. Começava de facto a dificultar a condução a ponto de me obrigar a parar várias vezes para segurar a mota. O piso também não ajudava. Desde o último entroncamento tinha-se tornado num autêntico tormento de rugas, buracos e grandes pedras. Progredia cada vez mais devagar e via os poucos carros que passavam a sofrer também os abanões da ventania.

A certa altura a estrada era uma longa recta, ladeada por duas elevações, numa espécie de desfiladeiro largo. Aqui as coisas atingiram proporções desmedidas. Atravessei uma primeira rajada de pedras e pó estremecendo mas agarrando com firmeza o volante. Avancei. Uma segunda rajada aproximou-se arremessando as suas munições que estalaram no vidro e no capacete e mesmo parado vi as forças quase não chegarem para aguentar a mota em pé. Não podia ser. Não me queria acreditar que não podia prosseguir por causa de… ar! Pausou a rajada, segui mais uns vinte metros e parei. Tive medo. Na minha direcção, uma gigantesca nuvem opaca de pó carregada de areia e pedras cavalgava num turbilhão engolindo a estrada à sua passagem. Agarrei o volante, e soube que ia ser um duelo desleal, como quando o mar resolve enviar uma onda exagerada.

Finquei os pés sentindo bater as primeiras pedras e no instante seguinte foi tudo uma grande confusão. Fui atirado com violência da mota fora, tombado e arrastado pelo chão. Não foi como se uma ventoinha gigante tivesse soprado com força a abanar-me os braços e a cabeça. Antes uma mão invisível que me pegou bem no meio do corpo, elevando-me e despejando-me com desprezo no chão. A mota, capotada. Levanto-me, tento pensar com rapidez, corto a corrente, desligo a ignição e tiro o saco de depósito que recolhia uma torrente de areia pelo zip mal fechado, a minha pobre máquina... Caía água do depósito da traseira, mas não cheirava a gasolina. Pousei o saco de depósito na relva, protegido por uma pedra grande e aguentei com passadas involuntárias as rajadas seguintes.

Pegar na mota sem ajuda estava fora de hipótese e fiquei à espera do próximo carro, que mandei parar. Duas senhoras e uma criança. A sorte não parece estar do meu lado. Sai a condutora, disposta a ajudar, lutando contra o vento. Explico o peso em questão, diz-me qualquer coisa que não percebo e dirige-se para a mota, que daí a nada estava em pé. Adeus, muito obrigado. Mal me ouviu. As rajadas continuavam a trazer areia às ondas. Corriam estrada fora desde o início do desfiladeiro varrendo tudo à passagem. Empurravam a mota que ameaçava virar por cima do descanso lateral, mesmo comigo a segurar do lado contrário. Era evidente que se saísse dali a mota tombava. Era mais do que evidente que era impossível pôr-me em cima dela, quanto mais seguir 2 metros que fossem nestas condições. Estava literalmente imobilizado.

Enquanto pensava no que seria possível fazer, pára ao meu lado uma carrinha branca, com um atrelado cheio de caiaques. Todo o conjunto ondulava ao sabor das rajadas. O condutor abriu a janela e trocámos uns gritos, mas pouco se ouvia. De tudo o que me disse, percebi que o vento não ia parar, tinha dado na rádio, ia piorar noite dentro. 150km/h por três dias. Perguntou se eu queria seguir atrás da carrinha protegido. Impossível. Se queria boleia. Sim, mas e a mota? Pedes ajuda na pousada, alguém virá contigo buscá-la depois. Bom, não ia ficar eternamente a segurar na mota à espera de um ciclone, de maneira que pedi que me ajudassem a deitá-la na berma, de pé não podia ficar. Vieram, e foram metralhados por pedras várias vezes. Mota pousada, ajudaram-me a levar os principais pertences para dentro da carrinha. Aquele saco ali na relva também!

Instantes depois entrava num pequeno paraíso. Um habitáculo fechado. Que calmo está aqui dentro! Arrancámos e olhei com alguma tristeza para a mota deitada no chão, vidro partido, literalmente abandonada, desaparecendo na poeira… Não sabia bem o que ia acontecer, achei que eles também não, e sentia-me bastante preocupado. Sabia que o preço das pousadas do parque era proibitivo, além de que era muito improvável conseguir uma vaga sem reservar com antecedência. Um parque de campismo, como tinha previsto inicialmente, não me parecia agora a solução mais interessante para enfrentar um temporal. E a mota? Como poderia ir buscar a mota? Não me agradava nada ter deixado ali a mota.

Chegámos por fim à pousada do Lago Grey. Alguma confusão com os meus pertences, enfim fui apresentado ao gerente, simpático, percebeu o problema e disse que ia comigo buscar a mota com uma pequena carrinha de caixa aberta. Tentei explicar-lhe que era muito grande, pesada. Não caberia, e mesmo que coubesse não a poderíamos levantar os dois. Muito bem, chama-se o Luis, e leva-se uma maior, disse ele. Pensei que, a menos que o tal senhor fosse o super-homem, 300Kg ainda era muita coisa para 3 pessoas. Mas o gerente tinha pressa e queria resolver o assunto rapidamente. Ou pelo menos queria dirigir-se para o assunto rapidamente. Eu achava que se estava a esquecer de levar a solução com ele, mas logo se veria.

Luis não era o super-homem e tão pouco o gerente quis esperar que eu tirasse as malas para aliviar o peso. 60kg não vale a pena, gritou, enquanto ia sendo fustigado pelas rajadas. Felizmente levei comigo o capacete, e mantinha o fato astronáutico a isolar-me da intempérie. Tentámos com ajuda de um pneu deitado a servir de degrau, mas a carrinha tinha um bom metro de altura, se não mais. Liguei a mota para empurrar com o motor e com alguma violência lá a fizemos empinar e muito esforço depois tínhamos a roda de trás em cima do pneu e a da frente lá para o alto. A partir daqui é que já não se mexia.

Apercebi-me que se aproximava um carro. Segurem-na! Salto para a estrada, vem outro carro no sentido contrário. Estou com sorte, um engarrafamento de três veículos em pleno deserto, mão-de-obra divina! Nestas estranhas condições é muito fácil angariar ajuda e ambos os condutores acudiram de imediato. Com cinco já a coisa vai! Grito a sincronizar, e não tarda está lá em cima. Deita-se a rapariga de qualquer maneira, quase não cabe, vai o rabo de fora, não se fecha a portada. Com muita pena minha a posição massacra mais ainda a mazela do vidro, mas não é tempo de queixumes, tento apenas apoiá-la com o pneu. Passo uma cinta na roda da frente, não vá querer deslizar e já os condutores se refugiaram nos carros, incluindo o gerente, sigo eu e o Luis cá atrás, lá fomos aos saltinhos e abanões, mas que piso este!

Estávamos a uns cinco kms da pousada. Doía-me já o braço da força com que tentava atenuar as pancadas do vidro nos ferros da pick-up. Nem me ocorreu não haver nada mais a segurar-me. Seguia de pé, mesmo no cantinho, em cima da portada aberta. Sentia o vento forte, serpenteámos alguns precipícios e a paisagem era incrível. Como quis fotografar aquele momento! Mas o saco estava dentro da cabine. Não tem mal, não me esqueço.

A mota estava aparentemente resolvida, mas e o temporal? E o parque de campismo onde ficava? E seria seguro? Levar-me para ali era uma boa solução temporária, mas como iria atravessar novamente o desfiladeiro para voltar? Estava agora ainda mais embrenhado no parque, e claramente bloqueado pelo temporal, sem sítio para dormir. Enquanto via aproximar-se a pousada, fiz uns cálculos rápidos, e concluí que a comida que tinha comigo acabaria no 2ºdia. Dieta à vista…

Texto também disponível em www.visaoonline.pt
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